by Francis Ivanovich

Por Francis Ivanovich:
Ao pintar a tela acima, que batizei de “Van Gogh” (óleo sobre tela, 60 x 60) quis questionar como a produção artística está subordinada ao poder do Capital.
O quadro aparentemente faz alusão à trágica morte do pintor holandês, que vendeu em vida apenas uma tela. No entanto, a questão que a tela suscita não se trata da maneira como morreu o artista, vítima de uma bala disparada de um revólver Lefaucheux, calibre de 7 mm, que foi leiloado em Paris, em 2019, por mais de 162 mil euros, cerca de 700 mil reais.
A arma que sangra na tela é metáfora para a subordinação da arte e do artista ao poder do capital, que captura a criação artística, e a vida do criador, as transformando em produtos lucrativos.
Nós, artistas, estamos a mercê dos que têm o poder de abrir e fechar portas, canetas que autorizam patrocínios, dos que determinam o que vale ou não vale a pena ser valorizado e consumido.
A obra de Van Gogh é o exemplo máximo de como o que era estranho, pode ser convertido em objeto de apreciação e desejo de posse.
Não basta talento e árduo trabalho para que o artista viva com dignidade; ele terá que ser aprovado pelos que detém os meios de produção, financiamento e promoção, caso contrário, permanecerá numa condição fantasmagórica e de inanição, como foi o caso de Van Gogh, enquanto vivo.
A tela Van Gogh é um alerta: viver exclusivamente da arte é algo muito perigoso, pode ser mortal. Requer do artista uma força descomunal, uma crença inabalável em seu trabalho. E não há nada de romântico nisso.
O fazer artístico é uma condição espiritual, uma necessidade física, é algo que o artista não consegue fugir em vida.
O êxito do artista, que é viver com dignidade da sua criação, poderá ser obtido ou não, e isso irá depender de fatores que fogem à sua vontade, à sua capacidade.
O artista está inserido num sistema complexo, cujos atores principais são, muitas vezes, néscios, brutamontes, lobos vorazes que enxergam a arte como adereço em seus projetos de poder e refúgios seguro para sua riqueza.
Hoje as telas de Van Gogh estampam paredes poderosas e instituições pelo mundo, como troféus de conquistas e salvaguarda.
Enquanto isso, os artistas pintam, esculpem, escrevem, filmam, musicam, interpretam a vida e os sonhos. Este é o papel que lhes cabe, custe o que custar.
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