Tag: Poder

  • Trocar a fita da máquina de escrever

    Fita para máquina de escrever

    Hoje os meios de comunicação só falaram sobre o retorno dos astronautas que deram a volta na lua. A cada dia a tecnologia evolui, nos provocando admiração. Enquanto os avanços tecnológicos propagam-se, como ácaros, eu estou às voltas com a troca da fita de minha máquina de escrever, a Lourdinha, a Olivetti Lettera 25. Recebi uma ligação telefônica em meu Motorola do simpático Átila, o rapaz que faz entregas para o Mercado Livre. Disse ao Átila que eu não poderia ir à portaria para receber a minha encomenda porque estava almoçando com o meu velho amigo Adriano Barbosa no Restaurante Caravelas, em Botafogo. Solicitei auxílio do meu amigo e vizinho Raphael Ruvenal para ir à portaria receber por mim as minhas três fitas de máquina cor preta para máquina Olivetti. O meu amigo as recebeu por mim. Estava ansioso para chegar em casa. Não via a hora de pegar as minhas fitas e trocar a velha fita pela novinha em folha. Creio que faz mais de 35 anos, pelo menos, que eu não troco a fita de uma máquina de escrever. Sempre tive dificuldades em executar essa tarefa, aparentemente simples. Era comum acontecer uma situação desagradável, o término da fita escapa da bobina. Além disso, eu terminava com os meus dedos todos sujos de tinta. Certa vez, eu amarrei na bobina a extremidade da fita, impedindo-a de fugir, não deu certo.

    Passadas mais de três décadas, eis que desta vez eu consegui trocar a fita com precisão, no entanto, foi impossível não sujar os dedos.
    Não se trata de saudosismo para utilizar máquina de escrever. Eu tenho dois motivos claros para a volta à datilografia: o primeiro é o prazer que sinto em teclar, ouvir o mecanismo cantar sua música de máquina; o segundo, o mais importante, é a materialização da escrita imediatamente consumada na folha de papel. A ideia, o pensamento, coisas até então escondidas dentro de mim, ganhando corpo, vida através da máquina de escrever; as letras do alfabeto sendo gravadas na epiderme da folha em branco, como se um espírito ganhasse corpo, deixando de ser imaterial para tornar-se objeto ao alcance de qualquer ser humano. Está bem cansativo esse mundo virtual que estamos vivendo. A nossa vida a cada dia se desmaterializa, reduz-se a um algoritmo, nossa despersonalização se implementa. Não somos mais uma pessoa de carne e osso, mas uma face que a tecnologia reconhece, uma biometria que nos confere autenticidade, um holograma da existência. Já não precisamos ir à agência bancária, nós somos o próprio Banco, e volta e meia somos assaltados, como antigamente, não os bandidos com armas em punho, mas por hackers que são mil vezes mais nocivos. Voltar a escrever na máquina, de maneira direta, sem intermediação de um programa, um software, um aplicativo, é libertador. Em tempos de IA, em que a falsificação, o plágio, a cópia estão em voga, ver um texto nascer na folha em branco de maneira instantânea é por demais libertador.

    O texto livre das distrações, sem banners eletrônicos, janelas, anúncios, luzes, imagens, livre leve e solto, esparramado na folha em branco como alguém que descansa sobre a cama.
    Enquanto o mundo prossegue na busca por mais soluções rápidas, eu estou de volta à realidade, à materialidade, sou outra vez um artesão. Um artesão do texto concretamente palpável, pronto para ser lido, tocado, cheirado, olhado na sua integridade e autenticidade.
    Sei muito bem que o que está aí não tem volta. Mas eu me dou o direito de me rebelar saudavelmente contra a opressão digital. Não vou continuar a entregar a minha alma às nuvens. Quantas fotografias já desapareceram no celular furtado, no computador que pifou definitivamente, no HD que queimou quando choveu e caiu a luz. Quantos textos perdi na imensidão dos emails que desapareceram no redemoinho do Gmail.  Sei muito bem que o que está aí não tem volta. Mas eu me dou o direito de me rebelar saudavelmente contra a opressão digital. Não vou continuar a entregar a minha alma às nuvens.

    Quero preservar a minha memória de verdade. E as fitas para máquina Olivetti que chegaram vão me ajudar nessa tarefa particular e soberana. A minha Lourdinha está tinindo, além de me oferecer um rendimento de escrever tão bonito.

    O texto materializado, palpável.

  • Arte e Poder

    Van Gogh, oil on canvas, 60 x 60., by Francis Ivanovich.

    Por Francis Ivanovich:

    Ao pintar a tela acima, que batizei de “Van Gogh” (óleo sobre tela, 60 x 60) quis questionar como a produção artística está subordinada ao poder do Capital. 

    O quadro aparentemente faz alusão à trágica morte do pintor holandês, que vendeu em vida apenas uma tela. No entanto, a questão que a tela suscita não se trata da maneira como morreu o artista, vítima de uma bala disparada de um revólver Lefaucheux, calibre de 7 mm, que foi leiloado em Paris, em 2019, por mais de 162 mil euros, cerca de 700 mil reais. 

    A arma que sangra na tela é metáfora para a subordinação da arte e do artista ao poder do capital, que captura a criação artística, e a vida do criador, as transformando em produtos lucrativos.

    Nós, artistas, estamos a mercê dos que têm o poder de abrir e fechar portas, canetas que autorizam patrocínios, dos que determinam o que vale ou não vale a pena ser valorizado e consumido.

    A obra de Van Gogh é o exemplo máximo de como o que era estranho, pode ser convertido em objeto de apreciação e desejo de posse.

    Não basta talento e árduo trabalho para que o artista viva com dignidade; ele terá que ser aprovado pelos que detém os meios de produção, financiamento e promoção, caso contrário, permanecerá numa condição fantasmagórica e de inanição, como foi o caso de Van Gogh, enquanto vivo.

    A tela Van Gogh é um alerta: viver exclusivamente da arte é algo muito perigoso, pode ser mortal. Requer do artista uma força descomunal, uma crença inabalável em seu trabalho. E não há nada de romântico nisso.

    O fazer artístico é uma condição espiritual, uma necessidade física, é algo que o artista não consegue fugir em vida.

    O êxito do artista, que é viver com dignidade da sua criação, poderá ser obtido ou não, e isso irá depender de fatores que fogem à sua vontade, à sua capacidade.

    O artista está inserido num sistema complexo, cujos atores principais são, muitas vezes, néscios, brutamontes, lobos vorazes que enxergam a arte como adereço em seus projetos de poder e refúgios seguro para sua riqueza.

    Hoje as telas de Van Gogh estampam paredes poderosas e instituições pelo mundo, como troféus de conquistas e salvaguarda.

    Enquanto isso, os artistas pintam, esculpem, escrevem, filmam, musicam, interpretam a vida e os sonhos. Este é o papel que lhes cabe, custe o que custar.