Francis Ivanovich

  • O lado oculto da Lua


    Por Francis Ivanovich

    Lua: parece ferro-velho. (Nasa)


    Os astronautas viram o lado oculto da Lua
    A Lua não se importou
    A Lua não sente
    A Terra sente, é viva
    A Lua é morta
    A Terra arrasta essa Lua morta
    A Lua que deseja vagar pelo espaço
    Os astronautas viram o lado oculto da Lua
    e não viram nada
    Antes de verem o lado oculto da Lua
    viram a Terra
    A belíssima Terra
    Sentiram saudades desse lugar tão vivo
    Mas o homem gosta de morte
    Quer mais riquezas
    Conquistar o universo
    O homem precisa de lados ocultos
    Foguetes e armas
    e luas mortas com água congelada
    A Lua é linda olhada da Terra
    É feia vista do espaço
    A Lua parece um ferro-velho
    Mas os poetas continuarão a cantar a Lua
    a Lua vista da Terra
    A Lua da Terra
    Lunar visão da Terra, tão bela.

    texto datilografado.
    (mais…)
  • Astenopia

    Francis Ivanovich e Lourdinha. (Foto Maya Ivanovna)

    Por Francis Ivanovich:


    Um cansaço de telas. Elas estão por todo lado. Fadiga ocular digital — astenopia. Talvez eu esteja sofrendo da síndrome da visão computacional, talvez. A primeira tela a ocupar o olhar provavelmente foi a obra de arte pintada pelos artistas do passado, geralmente retratando o divino, o poder, a cena de uma batalha ou a vida.
    Depois surge a fotografia, que tem como data oficial o ano de 1826, criada pelo francês Joseph Niépce. As pessoas passaram a ficar diante dessa nova tela, desse “milagre” que capturava a realidade para sempre.
    Chegamos ao ano de 1895, e uma grande tela nasce diante dos olhos dos seres humanos: o cinema. A primeira exibição pública acontece em Paris, graças aos irmãos Lumière, através do cinematógrafo. No dia 28 de dezembro daquele ano, os parisienses ficaram espantados com as cenas projetadas na grande tela, em que se viam trabalhadores saindo de uma fábrica.
    Não tardaria e, na década de 1920, é a vez do surgimento de uma tela que iria revolucionar o mundo: a televisão. Essa tela entraria em cada lar e se tornaria um membro permanente de cada família. O sr. John Baird fez a primeira demonstração da televisão em 1926.
    Passados apenas 49 anos, nasce diante de nossos olhos uma tela que mudaria nossas vidas e a maneira de ver o mundo: o computador de uso pessoal. É o ano de 1975, quando chega ao mercado o computador Altair 8800. Dá-se início à era dos PCs que, com a IBM e a Apple, nos anos 80, ganhariam o mundo, tornando obsoletas antigas formas de comunicação.
    A internet, que surgiu no meio militar nos anos 60, com a popularização dos PCs ganha vida entre as pessoas comuns e as empresas. A tela do computador torna-se o novo altar para o qual dirigimos nosso olhar.
    Enquanto tudo isso acontecia, lá atrás, em 1973, um sujeito chamado Martin Cooper, engenheiro da Motorola, inventava o aparelho celular, dando início à telefonia móvel. Esse era o berço de uma nova tela que viria a ser dominante: a tela do celular, que, com a Apple de Steve Jobs, assumiu o centro da nossa atenção.
    A tela do celular é hoje o nosso mundo, o nosso dia a dia, para o bem e para o mal. As telas estão por todo lado.
    Elas nos seduzem, nos aprisionam. Não há mais como fugir delas: estão por toda parte. Não foi por acaso que, no último sábado, fui à feira da Praça XV à procura de uma máquina de escrever.
    A encontrei.
    Linda, sujinha, abandonada: uma Olivetti Lettera 25, criada nos anos 70. Apesar do estado, ainda tinha até a fita com tinta. O vendedor não sabia operá-la. Examinei o lindo teclado branco, seu corpo, seus tipos, seu funcionamento.
    Me apaixonei.
    Vou levar Lourdinha para casa. Até a bolsa original ela possui. Relíquia.
    Lourdinha precisa de banho, teto e atenção. Prometo-lhe amor eterno. E o melhor: Lourdinha não tem tela eletrônica, digital, iluminada, cansando meus olhos, causando dor de cabeça, cansaço.
    Lourdinha ainda sabe cantar. Seu canto me lembra um trem que viaja por uma estrada de letras que são gravadas na folha branca — essa tela real, palpável, concreta.
    (Esta crônica foi escrita por Lourdinha.)
    Sinto-me revitalizado. Tornei-me mais humano, menos máquina, porque Lourdinha é extensão real das minhas mãos, dos meus dedos, dos meus ouvidos.
    Lourdinha não necessita de eletricidade, baterias, wi-fi ou internet. Ela só precisa de mim, inteiro. E eu dela, que agora é o meu descanso da opressão das telas digitais que dominam o mundo.
    Bem-vinda, Lourdinha. Você sempre foi, desde menino, o meu “brinquedo” favorito na casa de minha tia Lourdes.

    Esta crônica datilografada
  • Os amigos sem nome

    Palácio Capanema, onde funciona a Livraria Funarte. (foto de Tomaz Silva – Agência Brasil)

    Há muito tempo eu não ia a Livraria Funarte, que foi reaberta e funciona no térreo do Palácio Capanema. O lindo edifício, projeto do arquiteto Lúcio Costa, foi reformado e está belíssimo. Vale uma visita.

    Eu frequento o Capanema há mais de 40 anos. Iniciei minhas visitas nos anos 1980, quando passei a registrar meus textos teatrais no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, que funcionava em um dos seus andares.

    Sempre me impressionou como a luz externa toma o interior do prédio, através das vidraças que dominam a construção. Também gostava de descer suas escadas, evitando os concorridos elevadores. E pensar que um certo governo pensou em leiloar a preço de banana esse prédio tão importante para o país.

    Ao me dirigir para a livraria, eu só tinha em mente um pensamento: – Vou reencontrar a minha amiga que trabalha na livraria por tantos anos e até hoje não sei seu nome.

    Todos nós temos um amigo que não sabemos o nome. É a pessoa que você sempre esbarra na vida, sem hora marcada; revê por muitos anos em um determinado lugar. A gente se cumprimenta com amabilidade, e aos poucos, um afeto germina em nosso íntimo, tornando o estranho em alguém próximo, que faz parte da nossa história, mesmo que não saibamos o seu nome, ou algo sobre sua vida.

    Essa pessoa pode ser um engraxate, um porteiro, um jornaleiro, um atendente, no meu caso, é a livreira da Livraria Funarte. A conheço desde os tempos em que a livraria ocupava um anexo ao teatro Glauce Rocha, em frente à estação Carioca do Metrô. Foi ali que a conheci, quando propus que o espaço exibisse e comercializasse minhas camisas com a estampa “Vá Ao Teatro”, cujas letras eram iluminadas por refletores.

    Ao chegar à livraria recém reaberta, vejo a minha amiga detrás do balcão, de costas para a porta. Aproximo-me e anuncio minha presença, dizendo que eu a tinha em pensamento e expectativa de reencontro.

    Ela se volta e me reconhece, solta um imenso sorriso, e apertamos as mãos com entusiasmo. Eu também sou o seu amigo que ela não sabe o nome. Considero um milagre nosso reencontro, estar ainda vivo neste mundo tão perigoso é feito que deve ser comemorado.

    A minha amiga de longa data, que não sei o nome, trabalha há mais de 30 anos na livraria. Ela me dá notícias da colega que se aposentou, me indica publicações, e me pergunta como estou. A conversa chega ao áudio que minha neta Nalu me enviou dizendo que está com saudades, que eu executo como música para seus ouvidos.

    Finalmente nos despedimos. Ganho a rua com uma sensação de felicidade, de que valeu a pena ter ido ao Centro da Cidade, lugar que tem uma vital importância na minha vida, mas que hoje amarga sérios problemas. O Centro perdeu muito do seu encanto. Atualmente se mostra um lugar sem vida, empobrecido. O que faz uma cidade não é apenas a sua arquitetura, mas també o convívio entre as pessoas. O centro hoje é um lugar de passagem, não de permanência.

    Volto para casa feliz por ter reencontrado a minha amiga que não sei o nome. O Capanema me presenteou com mais uma boa lembrança, sólida construção do que sou, e que nem o tempo será capaz de demolir.

    Talvez esteja na hora de, em uma próxima visita, eu perguntar o nome da minha amiga. Ou, quem sabe, deixar como está, sermos amigos identificados apenas por um rosto, uma voz, ela livreira, eu leitor cliente. A gente tem mania de botar nome em tudo, e há coisas nesta vida que não precisam ser nomeadas, mas serem vividas, sentidas. De verdade.

  • O Cogumelo de Herodes

    Cogumelo de Herodes, óleo sobre tela, 60 x 60, de Francis Ivanovich.

    As recentes notícias sobre a guerra dos EUA, Israel contra o Irã, são bem preocupantes. O conflito torna ainda mais inseguro o mundo. Um dos efeitos foi a decisão da França reforçar seu arsenal nuclear. A corrida radioativa é inevitável.

    O raciocínio dos líderes dos países que detém arsenal nuclear é de uma estupidez incrível: quanto mais ogivas, mais medo e respeito meu país  terá.

    Enquanto isso, nós, pobres mortais, que tentamos sobreviver da melhor forma possível, sequer pensamos no que ocorre sobre as nossas cabeças.

    Uma guerra nuclear é coisa de filme apocalíptico. A gente não acredita que a qualquer momento um cogumelo radioativo vá surgir no horizonte, dizimando a nossa espécie.

    A minha última pintura trata dessa questão. Na tela, vemos um gigantesco cogumelo, enquanto crianças brincam despreocupadamente sob ele.

    O Cogumelo de Herodes é metáfora, simbolismo, de um tempo em que a humanidade, representada pela criança, está seriamente ameaçada.

    Não bastasse tanta violência em nosso cotidiano, contra mulheres, crianças, idosos, nações, injustiças e desigualdades, agora temos de estar sujeitos aos caprichos e decisões de supostos líderes que apostam suas fichas no Armageddon.

    A arte não tem o poder de mudar a realidade, mas tem a capacidade de provocar reflexão e despertar o olhar para o que está ao nosso lado e não percebemos.

    Precisamos buscar a paz, o diálogo, caso contrário, ninguém sairá vitorioso nesse perigoso jogo; todos nós, sem exceção, perderemos o bem mais precioso que temos, a nossa própria existência no planeta.

  • A Guerra Nossa de Cada Dia

    A Guerra Nossa de Cada Dia, óleo sobre tela, 60 x 60, de Francis Ivanovich.

    O quadro acima, “A Guerra Nossa de Cada Dia”, óleo sobre tela, 60 x 60, concluí antes do início da nova guerra dos EUA e Irã.

    Nos causa profunda tristeza a nova guerra. É inevitável sermos acometidos por um temor de que o conflito se espalhe e se torne global.  Há algum tempo não ouvíamos a palavra nuclear, que agora retorna como um espectro assustador.

    Estou pensando na minha amada neta Nalu, que completou 10 anos, na minha querida sobrinha Hanna, que chegou aos 21 anos,  e no Antônio, bisneto da minha eterna e saudosa professora Marina Paranhos, que fez 1 aninho de vida.

    Penso em todas as crianças e jovens deste mundo tão conturbado. Mundo esse nas mãos de delinquentes, criminosos, disfarçados de homens valorosos e preocupados com o povo.

    O mundo está sendo governado por gente da pior espécie, preocupados com os seus próprios interesses. É inaceitável que essa gente esteja comprometendo a vida e o futuro da humanidade.

    Votar é coisa muito séria. Não podemos continuar entregando o poder, o nosso futuro, através do voto, a pessoas que não têm a mínima condição de conduzir os destinos de um país.

    Nalu, Hanna, Antônio e todas as crianças e jovens merecem o melhor dos mundos. Não é justo que as gerações futuras herdem a Terra mergulhada no medo do extermínio nuclear, no caos climático, com violência, fome e dor.

    Cabe a cada um de nós não aceitar que essa gente faça o que quiser das nossas vidas. Devemos, de alguma forma, reagir contra seus planos maquiavélicos, doentios. E votar melhor, com mais consciência, clareza, sem paixão, é o primeiro passo.

    Nossas crianças e jovens agradecem.

  • Arte e Poder

    Van Gogh, oil on canvas, 60 x 60., by Francis Ivanovich.

    Por Francis Ivanovich:

    Ao pintar a tela acima, que batizei de “Van Gogh” (óleo sobre tela, 60 x 60) quis questionar como a produção artística está subordinada ao poder do Capital. 

    O quadro aparentemente faz alusão à trágica morte do pintor holandês, que vendeu em vida apenas uma tela. No entanto, a questão que a tela suscita não se trata da maneira como morreu o artista, vítima de uma bala disparada de um revólver Lefaucheux, calibre de 7 mm, que foi leiloado em Paris, em 2019, por mais de 162 mil euros, cerca de 700 mil reais. 

    A arma que sangra na tela é metáfora para a subordinação da arte e do artista ao poder do capital, que captura a criação artística, e a vida do criador, as transformando em produtos lucrativos.

    Nós, artistas, estamos a mercê dos que têm o poder de abrir e fechar portas, canetas que autorizam patrocínios, dos que determinam o que vale ou não vale a pena ser valorizado e consumido.

    A obra de Van Gogh é o exemplo máximo de como o que era estranho, pode ser convertido em objeto de apreciação e desejo de posse.

    Não basta talento e árduo trabalho para que o artista viva com dignidade; ele terá que ser aprovado pelos que detém os meios de produção, financiamento e promoção, caso contrário, permanecerá numa condição fantasmagórica e de inanição, como foi o caso de Van Gogh, enquanto vivo.

    A tela Van Gogh é um alerta: viver exclusivamente da arte é algo muito perigoso, pode ser mortal. Requer do artista uma força descomunal, uma crença inabalável em seu trabalho. E não há nada de romântico nisso.

    O fazer artístico é uma condição espiritual, uma necessidade física, é algo que o artista não consegue fugir em vida.

    O êxito do artista, que é viver com dignidade da sua criação, poderá ser obtido ou não, e isso irá depender de fatores que fogem à sua vontade, à sua capacidade.

    O artista está inserido num sistema complexo, cujos atores principais são, muitas vezes, néscios, brutamontes, lobos vorazes que enxergam a arte como adereço em seus projetos de poder e refúgios seguro para sua riqueza.

    Hoje as telas de Van Gogh estampam paredes poderosas e instituições pelo mundo, como troféus de conquistas e salvaguarda.

    Enquanto isso, os artistas pintam, esculpem, escrevem, filmam, musicam, interpretam a vida e os sonhos. Este é o papel que lhes cabe, custe o que custar.