Poemas de Francis Ivanovich:
UM DIA NORMAL
(02-abril-2026)
O funcionário do supermercado
Teve um ataque cardíaco fulminante
Minha áfta é gigante
Encontro Camus na Folha Seca
Levo para casa A Peste, A Queda,
O Estrangeiro, O Mito de Sísifo
A papelaria não tem fita para a
Minha Lettera 25
Minha amiga que vive na Austrália
vai fazer cinema
Os ovos estão de um amarelo pálido
Amanhã será sexta-feira Santa
O meu novo par de tênis vai
chegar em breve
Meus intestinos estão normais
Os meus dias estão tambêm normais.

FINITUDE
(01-abril-2026)
O agora tem hora
A hora tem término
O segundo é um instante
O ontem não mais existe
O amanhã é incerteza
O certo já passou
Nada ficou
Nem lembrança
Tudo parece sonho
E o sonho nem foi sonhado.

UM POEMA
Um poema é um milagre
Um poema é também filosofia
Um poema é mistério
Um poema é sacrilégio
Um poema é descoberta
Um poema é revelação
Um poema é vida
Um poema é morte
Um poema é acidental
Um poema é sorte
Um poema é um espanto
Um poema é santo
Um poema é humano
Um poema é divino
Um poema é Tudo
Um poema é Nada
Um poema é
Um poema não é
Um poema é problema.
Um poema é solução
Um poema é pecado
Um poema é redenção
Um poema é loucura
Um poema é sanidade
Um poema é música
Um poema é silêncio
Um poema é escuridão
Um poema é luz

O PRIMEIRO VÔO
Na tenra idade de ser
Nutrindo-se no bico materno
Sob as asas paternais pré vôo
Ou caminhada, o filhote de ave.
No aconchego do ninho em
Galho, penhasco ou solo, quase seguro,
O filhote pluma-se de seu destino.
A escolha nem sempre pousa certeira
Porque a rota migratória pode já ter sido
Traçada no seu sangue.
Eis que as correntes aéreas e o terreno pedregoso
Se apresentam diante dos olhos arregalados, sob
As patas incertas, clamando decisão.
O filhote vê-se compelido ao salto ou mergulho no abismo escuro e profundo.
Finalmente o filhote se entrega aos ares, deixando para sempre o ninho.
Agora é com ele: ser águia ou avestruz neste rasante mundo que flutua no espaço.
VIDAS
Há vidas que cabem numa caixa de presentes
Há outras que nem na lembrança da gente
Há vidas que cabem nos arquivos
Há outras que não cabem nem nos livros
Há vidas que cabem numa caneca
Há outras que não cabem sequer numa biblioteca
Há vidas que cabem num pequeno HD
Há outras que não cabem na mais espaçosa nuvem
Há vidas que cabem numa singela oração
Há outras que não cabem nem no Alcorão
Há vidas que cabem por trás de um balcão
Há outras que ultrapassam o gigante Plutão
Há vidas que cabem num pedaço de pano
Há outras que transbordam até o oceano
Há vidas que cabem na própria vida
Há outras que nem na morte são interrompidas
Há vidas que cabem numa galeria
Há outras que nem basta a Poesia
Há vidas que cabem na glória
Há outras que não cabem na História
Há vidas que cabem num caixão
Há outras que não cabem na imaginação
Há vidas que cabem numa pasta
Para outras nem um planeta basta
Há vidas que cabem num fim
Mas a minha vida sequer cabe em mim
BECKETT
População urbana
Antologia de Emoções
Néctar secundário
Terciário
Diário de Concreto
Pendulário canibalismo
Cobra-Ferro
Pé-Borracha
Cinderela sem principado
Álbum Cidadão
Postal-Mérlin
Jornal-Holmes
Grande salada de
Pimenta com margarida!
Megalópole dos uníssonos galos
Empoleirados nas sonâmbulas
Fábricas-copiadoras
Do Belo-Mortal!
Falso dorminhoco das virines!
Shopping M.R.O
Híper-Gôndola!
Supermarcado destino!
Devorador das Etiquetas!
Cidade rendada.
Pirâmide, a Maravilha do mundo:
Zé Raimundo
Seu João
Abraão
População Bacana
Pastel e Caldo de cana
Burgs e Coke
Funções Mercadológicas:
IAM-IAM!
GLUP! GLUP!
ZIPER! ZIPER!
Choque do rosa com o verde descolorido
Papagaio F.G.T.S
A balança marca dez e vinte!
TIC-TAC Marginal!
Fato-Fatal!
Drama ABSURDO!!!