O COGUMELO DE HERODES

As recentes notícias sobre a guerra dos EUA, Israel contra o Irã, são bem preocupantes. O conflito torna ainda mais inseguro o mundo. Um dos efeitos foi a decisão da França reforçar seu arsenal nuclear. A corrida radioativa é inevitável.
O raciocínio dos líderes dos países que detém arsenal nuclear é de uma estupidez incrível: quanto mais ogivas, mais medo e respeito meu país terá.
Enquanto isso, nós, pobres mortais, que tentamos sobreviver da melhor forma possível, sequer pensamos no que ocorre sobre as nossas cabeças.
Uma guerra nuclear é coisa de filme apocalíptico. A gente não acredita que a qualquer momento um cogumelo radioativo vá surgir no horizonte, dizimando a nossa espécie.
A minha última pintura trata dessa questão. Na tela, vemos um gigantesco cogumelo, enquanto crianças brincam despreocupadamente sob ele.
O Cogumelo de Herodes é metáfora, simbolismo, de um tempo em que a humanidade, representada pela criança, está seriamente ameaçada.
Não bastasse tanta violência em nosso cotidiano, contra mulheres, crianças, idosos, nações, injustiças e desigualdades, agora temos de estar sujeitos aos caprichos e decisões de supostos líderes que apostam suas fichas no Armageddon.
A arte não tem o poder de mudar a realidade, mas tem a capacidade de provocar reflexão e despertar o olhar para o que está ao nosso lado e não percebemos.
Precisamos buscar a paz, o diálogo, caso contrário, ninguém sairá vitorioso nesse perigoso jogo; todos nós, sem exceção, perderemos o bem mais precioso que temos, a nossa própria existência no planeta.
A GUERRA NOSSA DE CADA DIA

O quadro acima, “A Guerra Nossa de Cada Dia”, óleo sobre tela, 60 x 60, concluí antes do início da nova guerra dos EUA e Irã.
Nos causa profunda tristeza a nova guerra. É inevitável sermos acometidos por um temor de que o conflito se espalhe e se torne global. Há algum tempo não ouvíamos a palavra nuclear, que agora retorna como um espectro assustador.
Estou pensando na minha amada neta Nalu, que completou 10 anos, na minha querida sobrinha Hanna, que chegou aos 21 anos, e no Antônio, bisneto da minha eterna e saudosa professora Marina Paranhos, que fez 1 aninho de vida.
Penso em todas as crianças e jovens deste mundo tão conturbado. Mundo esse nas mãos de delinquentes, criminosos, disfarçados de homens valorosos e preocupados com o povo.
O mundo está sendo governado por gente da pior espécie, preocupados com os seus próprios interesses. É inaceitável que essa gente esteja comprometendo a vida e o futuro da humanidade.
Votar é coisa muito séria. Não podemos continuar entregando o poder, o nosso futuro, através do voto, a pessoas que não têm a mínima condição de conduzir os destinos de um país.
Nalu, Hanna, Antônio e todas as crianças e jovens merecem o melhor dos mundos. Não é justo que as gerações futuras herdem a Terra mergulhada no medo do extermínio nuclear, no caos climático, com violência, fome e dor.
Cabe a cada um de nós não aceitar que essa gente faça o que quiser das nossas vidas. Devemos, de alguma forma, reagir contra seus planos maquiavélicos, doentios. E votar melhor, com mais consciência, clareza, sem paixão, é o primeiro passo.
Nossas crianças e jovens agradecem.
ARTE E PODER

Ao pintar a tela acima, que batizei de “Van Gogh” (óleo sobre tela, 60 x 60) quis questionar como a produção artística está subordinada ao poder do Capital.
O quadro aparentemente faz alusão à trágica morte do pintor holandês, que vendeu em vida apenas uma tela. No entanto, a questão que a tela suscita não se trata da maneira como morreu o artista, vítima de uma bala disparada de um revólver Lefaucheux, calibre de 7 mm, que foi leiloado em Paris, em 2019, por mais de 162 mil euros, cerca de 700 mil reais.
A arma que sangra na tela é metáfora para a subordinação da arte e do artista ao poder do capital, que captura a criação artística, e a vida do criador, as transformando em produtos lucrativos.
Nós, artistas, estamos a mercê dos que têm o poder de abrir e fechar portas, canetas que autorizam patrocínios, dos que determinam o que vale ou não vale a pena ser valorizado e consumido.
A obra de Van Gogh é o exemplo máximo de como o que era estranho, pode ser convertido em objeto de apreciação e desejo de posse.
Não basta talento e árduo trabalho para que o artista viva com dignidade; ele terá que ser aprovado pelos que detém os meios de produção, financiamento e promoção, caso contrário, permanecerá numa condição fantasmagórica e de inanição, como foi o caso de Van Gogh, enquanto vivo.
A tela Van Gogh é um alerta: viver exclusivamente da arte é algo muito perigoso, pode ser mortal. Requer do artista uma força descomunal, uma crença inabalável em seu trabalho. E não há nada de romântico nisso.
O fazer artístico é uma condição espiritual, uma necessidade física, é algo que o artista não consegue fugir em vida.
O êxito do artista, que é viver com dignidade da sua criação, poderá ser obtido ou não, e isso irá depender de fatores que fogem à sua vontade, à sua capacidade.
O artista está inserido num sistema complexo, cujos atores principais são, muitas vezes, néscios, brutamontes, lobos vorazes que enxergam a arte como adereço em seus projetos de poder e refúgios seguro para sua riqueza.
Hoje as telas de Van Gogh estampam paredes poderosas e instituições pelo mundo, como troféus de conquistas e salvaguarda.
Enquanto isso, os artistas pintam, esculpem, escrevem, filmam, musicam, interpretam a vida e os sonhos. Este é o papel que lhes cabe, custe o que custar.