Tag: máquina de escrever

  • Astenopia

    Francis Ivanovich e Lourdinha. (Foto Maya Ivanovna)

    Por Francis Ivanovich:


    Um cansaço de telas. Elas estão por todo lado. Fadiga ocular digital — astenopia. Talvez eu esteja sofrendo da síndrome da visão computacional, talvez. A primeira tela a ocupar o olhar provavelmente foi a obra de arte pintada pelos artistas do passado, geralmente retratando o divino, o poder, a cena de uma batalha ou a vida.
    Depois surge a fotografia, que tem como data oficial o ano de 1826, criada pelo francês Joseph Niépce. As pessoas passaram a ficar diante dessa nova tela, desse “milagre” que capturava a realidade para sempre.
    Chegamos ao ano de 1895, e uma grande tela nasce diante dos olhos dos seres humanos: o cinema. A primeira exibição pública acontece em Paris, graças aos irmãos Lumière, através do cinematógrafo. No dia 28 de dezembro daquele ano, os parisienses ficaram espantados com as cenas projetadas na grande tela, em que se viam trabalhadores saindo de uma fábrica.
    Não tardaria e, na década de 1920, é a vez do surgimento de uma tela que iria revolucionar o mundo: a televisão. Essa tela entraria em cada lar e se tornaria um membro permanente de cada família. O sr. John Baird fez a primeira demonstração da televisão em 1926.
    Passados apenas 49 anos, nasce diante de nossos olhos uma tela que mudaria nossas vidas e a maneira de ver o mundo: o computador de uso pessoal. É o ano de 1975, quando chega ao mercado o computador Altair 8800. Dá-se início à era dos PCs que, com a IBM e a Apple, nos anos 80, ganhariam o mundo, tornando obsoletas antigas formas de comunicação.
    A internet, que surgiu no meio militar nos anos 60, com a popularização dos PCs ganha vida entre as pessoas comuns e as empresas. A tela do computador torna-se o novo altar para o qual dirigimos nosso olhar.
    Enquanto tudo isso acontecia, lá atrás, em 1973, um sujeito chamado Martin Cooper, engenheiro da Motorola, inventava o aparelho celular, dando início à telefonia móvel. Esse era o berço de uma nova tela que viria a ser dominante: a tela do celular, que, com a Apple de Steve Jobs, assumiu o centro da nossa atenção.
    A tela do celular é hoje o nosso mundo, o nosso dia a dia, para o bem e para o mal. As telas estão por todo lado.
    Elas nos seduzem, nos aprisionam. Não há mais como fugir delas: estão por toda parte. Não foi por acaso que, no último sábado, fui à feira da Praça XV à procura de uma máquina de escrever.
    A encontrei.
    Linda, sujinha, abandonada: uma Olivetti Lettera 25, criada nos anos 70. Apesar do estado, ainda tinha até a fita com tinta. O vendedor não sabia operá-la. Examinei o lindo teclado branco, seu corpo, seus tipos, seu funcionamento.
    Me apaixonei.
    Vou levar Lourdinha para casa. Até a bolsa original ela possui. Relíquia.
    Lourdinha precisa de banho, teto e atenção. Prometo-lhe amor eterno. E o melhor: Lourdinha não tem tela eletrônica, digital, iluminada, cansando meus olhos, causando dor de cabeça, cansaço.
    Lourdinha ainda sabe cantar. Seu canto me lembra um trem que viaja por uma estrada de letras que são gravadas na folha branca — essa tela real, palpável, concreta.
    (Esta crônica foi escrita por Lourdinha.)
    Sinto-me revitalizado. Tornei-me mais humano, menos máquina, porque Lourdinha é extensão real das minhas mãos, dos meus dedos, dos meus ouvidos.
    Lourdinha não necessita de eletricidade, baterias, wi-fi ou internet. Ela só precisa de mim, inteiro. E eu dela, que agora é o meu descanso da opressão das telas digitais que dominam o mundo.
    Bem-vinda, Lourdinha. Você sempre foi, desde menino, o meu “brinquedo” favorito na casa de minha tia Lourdes.

    Esta crônica datilografada