
Há muito tempo eu não ia a Livraria Funarte, que foi reaberta e funciona no térreo do Palácio Capanema. O lindo edifício, projeto do arquiteto Lúcio Costa, foi reformado e está belíssimo. Vale uma visita.
Eu frequento o Capanema há mais de 40 anos. Iniciei minhas visitas nos anos 1980, quando passei a registrar meus textos teatrais no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, que funcionava em um dos seus andares.
Sempre me impressionou como a luz externa toma o interior do prédio, através das vidraças que dominam a construção. Também gostava de descer suas escadas, evitando os concorridos elevadores. E pensar que um certo governo pensou em leiloar a preço de banana esse prédio tão importante para o país.
Ao me dirigir para a livraria, eu só tinha em mente um pensamento: – Vou reencontrar a minha amiga que trabalha na livraria por tantos anos e até hoje não sei seu nome.
Todos nós temos um amigo que não sabemos o nome. É a pessoa que você sempre esbarra na vida, sem hora marcada; revê por muitos anos em um determinado lugar. A gente se cumprimenta com amabilidade, e aos poucos, um afeto germina em nosso íntimo, tornando o estranho em alguém próximo, que faz parte da nossa história, mesmo que não saibamos o seu nome, ou algo sobre sua vida.
Essa pessoa pode ser um engraxate, um porteiro, um jornaleiro, um atendente, no meu caso, é a livreira da Livraria Funarte. A conheço desde os tempos em que a livraria ocupava um anexo ao teatro Glauce Rocha, em frente à estação Carioca do Metrô. Foi ali que a conheci, quando propus que o espaço exibisse e comercializasse minhas camisas com a estampa “Vá Ao Teatro”, cujas letras eram iluminadas por refletores.
Ao chegar à livraria recém reaberta, vejo a minha amiga detrás do balcão, de costas para a porta. Aproximo-me e anuncio minha presença, dizendo que eu a tinha em pensamento e expectativa de reencontro.
Ela se volta e me reconhece, solta um imenso sorriso, e apertamos as mãos com entusiasmo. Eu também sou o seu amigo que ela não sabe o nome. Considero um milagre nosso reencontro, estar ainda vivo neste mundo tão perigoso é feito que deve ser comemorado.
A minha amiga de longa data, que não sei o nome, trabalha há mais de 30 anos na livraria. Ela me dá notícias da colega que se aposentou, me indica publicações, e me pergunta como estou. A conversa chega ao áudio que minha neta Nalu me enviou dizendo que está com saudades, que eu executo como música para seus ouvidos.
Finalmente nos despedimos. Ganho a rua com uma sensação de felicidade, de que valeu a pena ter ido ao Centro da Cidade, lugar que tem uma vital importância na minha vida, mas que hoje amarga sérios problemas. O Centro perdeu muito do seu encanto. Atualmente se mostra um lugar sem vida, empobrecido. O que faz uma cidade não é apenas a sua arquitetura, mas també o convívio entre as pessoas. O centro hoje é um lugar de passagem, não de permanência.
Volto para casa feliz por ter reencontrado a minha amiga que não sei o nome. O Capanema me presenteou com mais uma boa lembrança, sólida construção do que sou, e que nem o tempo será capaz de demolir.
Talvez esteja na hora de, em uma próxima visita, eu perguntar o nome da minha amiga. Ou, quem sabe, deixar como está, sermos amigos identificados apenas por um rosto, uma voz, ela livreira, eu leitor cliente. A gente tem mania de botar nome em tudo, e há coisas nesta vida que não precisam ser nomeadas, mas serem vividas, sentidas. De verdade.


