Categoria: Ideias

  • Os amigos sem nome

    Palácio Capanema, onde funciona a Livraria Funarte. (foto de Tomaz Silva – Agência Brasil)

    Há muito tempo eu não ia a Livraria Funarte, que foi reaberta e funciona no térreo do Palácio Capanema. O lindo edifício, projeto do arquiteto Lúcio Costa, foi reformado e está belíssimo. Vale uma visita.

    Eu frequento o Capanema há mais de 40 anos. Iniciei minhas visitas nos anos 1980, quando passei a registrar meus textos teatrais no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, que funcionava em um dos seus andares.

    Sempre me impressionou como a luz externa toma o interior do prédio, através das vidraças que dominam a construção. Também gostava de descer suas escadas, evitando os concorridos elevadores. E pensar que um certo governo pensou em leiloar a preço de banana esse prédio tão importante para o país.

    Ao me dirigir para a livraria, eu só tinha em mente um pensamento: – Vou reencontrar a minha amiga que trabalha na livraria por tantos anos e até hoje não sei seu nome.

    Todos nós temos um amigo que não sabemos o nome. É a pessoa que você sempre esbarra na vida, sem hora marcada; revê por muitos anos em um determinado lugar. A gente se cumprimenta com amabilidade, e aos poucos, um afeto germina em nosso íntimo, tornando o estranho em alguém próximo, que faz parte da nossa história, mesmo que não saibamos o seu nome, ou algo sobre sua vida.

    Essa pessoa pode ser um engraxate, um porteiro, um jornaleiro, um atendente, no meu caso, é a livreira da Livraria Funarte. A conheço desde os tempos em que a livraria ocupava um anexo ao teatro Glauce Rocha, em frente à estação Carioca do Metrô. Foi ali que a conheci, quando propus que o espaço exibisse e comercializasse minhas camisas com a estampa “Vá Ao Teatro”, cujas letras eram iluminadas por refletores.

    Ao chegar à livraria recém reaberta, vejo a minha amiga detrás do balcão, de costas para a porta. Aproximo-me e anuncio minha presença, dizendo que eu a tinha em pensamento e expectativa de reencontro.

    Ela se volta e me reconhece, solta um imenso sorriso, e apertamos as mãos com entusiasmo. Eu também sou o seu amigo que ela não sabe o nome. Considero um milagre nosso reencontro, estar ainda vivo neste mundo tão perigoso é feito que deve ser comemorado.

    A minha amiga de longa data, que não sei o nome, trabalha há mais de 30 anos na livraria. Ela me dá notícias da colega que se aposentou, me indica publicações, e me pergunta como estou. A conversa chega ao áudio que minha neta Nalu me enviou dizendo que está com saudades, que eu executo como música para seus ouvidos.

    Finalmente nos despedimos. Ganho a rua com uma sensação de felicidade, de que valeu a pena ter ido ao Centro da Cidade, lugar que tem uma vital importância na minha vida, mas que hoje amarga sérios problemas. O Centro perdeu muito do seu encanto. Atualmente se mostra um lugar sem vida, empobrecido. O que faz uma cidade não é apenas a sua arquitetura, mas també o convívio entre as pessoas. O centro hoje é um lugar de passagem, não de permanência.

    Volto para casa feliz por ter reencontrado a minha amiga que não sei o nome. O Capanema me presenteou com mais uma boa lembrança, sólida construção do que sou, e que nem o tempo será capaz de demolir.

    Talvez esteja na hora de, em uma próxima visita, eu perguntar o nome da minha amiga. Ou, quem sabe, deixar como está, sermos amigos identificados apenas por um rosto, uma voz, ela livreira, eu leitor cliente. A gente tem mania de botar nome em tudo, e há coisas nesta vida que não precisam ser nomeadas, mas serem vividas, sentidas. De verdade.

  • O Cogumelo de Herodes

    Cogumelo de Herodes, óleo sobre tela, 60 x 60, de Francis Ivanovich.

    As recentes notícias sobre a guerra dos EUA, Israel contra o Irã, são bem preocupantes. O conflito torna ainda mais inseguro o mundo. Um dos efeitos foi a decisão da França reforçar seu arsenal nuclear. A corrida radioativa é inevitável.

    O raciocínio dos líderes dos países que detém arsenal nuclear é de uma estupidez incrível: quanto mais ogivas, mais medo e respeito meu país  terá.

    Enquanto isso, nós, pobres mortais, que tentamos sobreviver da melhor forma possível, sequer pensamos no que ocorre sobre as nossas cabeças.

    Uma guerra nuclear é coisa de filme apocalíptico. A gente não acredita que a qualquer momento um cogumelo radioativo vá surgir no horizonte, dizimando a nossa espécie.

    A minha última pintura trata dessa questão. Na tela, vemos um gigantesco cogumelo, enquanto crianças brincam despreocupadamente sob ele.

    O Cogumelo de Herodes é metáfora, simbolismo, de um tempo em que a humanidade, representada pela criança, está seriamente ameaçada.

    Não bastasse tanta violência em nosso cotidiano, contra mulheres, crianças, idosos, nações, injustiças e desigualdades, agora temos de estar sujeitos aos caprichos e decisões de supostos líderes que apostam suas fichas no Armageddon.

    A arte não tem o poder de mudar a realidade, mas tem a capacidade de provocar reflexão e despertar o olhar para o que está ao nosso lado e não percebemos.

    Precisamos buscar a paz, o diálogo, caso contrário, ninguém sairá vitorioso nesse perigoso jogo; todos nós, sem exceção, perderemos o bem mais precioso que temos, a nossa própria existência no planeta.

  • A Guerra Nossa de Cada Dia

    A Guerra Nossa de Cada Dia, óleo sobre tela, 60 x 60, de Francis Ivanovich.

    O quadro acima, “A Guerra Nossa de Cada Dia”, óleo sobre tela, 60 x 60, concluí antes do início da nova guerra dos EUA e Irã.

    Nos causa profunda tristeza a nova guerra. É inevitável sermos acometidos por um temor de que o conflito se espalhe e se torne global.  Há algum tempo não ouvíamos a palavra nuclear, que agora retorna como um espectro assustador.

    Estou pensando na minha amada neta Nalu, que completou 10 anos, na minha querida sobrinha Hanna, que chegou aos 21 anos,  e no Antônio, bisneto da minha eterna e saudosa professora Marina Paranhos, que fez 1 aninho de vida.

    Penso em todas as crianças e jovens deste mundo tão conturbado. Mundo esse nas mãos de delinquentes, criminosos, disfarçados de homens valorosos e preocupados com o povo.

    O mundo está sendo governado por gente da pior espécie, preocupados com os seus próprios interesses. É inaceitável que essa gente esteja comprometendo a vida e o futuro da humanidade.

    Votar é coisa muito séria. Não podemos continuar entregando o poder, o nosso futuro, através do voto, a pessoas que não têm a mínima condição de conduzir os destinos de um país.

    Nalu, Hanna, Antônio e todas as crianças e jovens merecem o melhor dos mundos. Não é justo que as gerações futuras herdem a Terra mergulhada no medo do extermínio nuclear, no caos climático, com violência, fome e dor.

    Cabe a cada um de nós não aceitar que essa gente faça o que quiser das nossas vidas. Devemos, de alguma forma, reagir contra seus planos maquiavélicos, doentios. E votar melhor, com mais consciência, clareza, sem paixão, é o primeiro passo.

    Nossas crianças e jovens agradecem.

  • Arte e Poder

    Van Gogh, oil on canvas, 60 x 60., by Francis Ivanovich.

    Por Francis Ivanovich:

    Ao pintar a tela acima, que batizei de “Van Gogh” (óleo sobre tela, 60 x 60) quis questionar como a produção artística está subordinada ao poder do Capital. 

    O quadro aparentemente faz alusão à trágica morte do pintor holandês, que vendeu em vida apenas uma tela. No entanto, a questão que a tela suscita não se trata da maneira como morreu o artista, vítima de uma bala disparada de um revólver Lefaucheux, calibre de 7 mm, que foi leiloado em Paris, em 2019, por mais de 162 mil euros, cerca de 700 mil reais. 

    A arma que sangra na tela é metáfora para a subordinação da arte e do artista ao poder do capital, que captura a criação artística, e a vida do criador, as transformando em produtos lucrativos.

    Nós, artistas, estamos a mercê dos que têm o poder de abrir e fechar portas, canetas que autorizam patrocínios, dos que determinam o que vale ou não vale a pena ser valorizado e consumido.

    A obra de Van Gogh é o exemplo máximo de como o que era estranho, pode ser convertido em objeto de apreciação e desejo de posse.

    Não basta talento e árduo trabalho para que o artista viva com dignidade; ele terá que ser aprovado pelos que detém os meios de produção, financiamento e promoção, caso contrário, permanecerá numa condição fantasmagórica e de inanição, como foi o caso de Van Gogh, enquanto vivo.

    A tela Van Gogh é um alerta: viver exclusivamente da arte é algo muito perigoso, pode ser mortal. Requer do artista uma força descomunal, uma crença inabalável em seu trabalho. E não há nada de romântico nisso.

    O fazer artístico é uma condição espiritual, uma necessidade física, é algo que o artista não consegue fugir em vida.

    O êxito do artista, que é viver com dignidade da sua criação, poderá ser obtido ou não, e isso irá depender de fatores que fogem à sua vontade, à sua capacidade.

    O artista está inserido num sistema complexo, cujos atores principais são, muitas vezes, néscios, brutamontes, lobos vorazes que enxergam a arte como adereço em seus projetos de poder e refúgios seguro para sua riqueza.

    Hoje as telas de Van Gogh estampam paredes poderosas e instituições pelo mundo, como troféus de conquistas e salvaguarda.

    Enquanto isso, os artistas pintam, esculpem, escrevem, filmam, musicam, interpretam a vida e os sonhos. Este é o papel que lhes cabe, custe o que custar.