Sento-me na loja de mate gelado, na Rua da Glória, a fim de fazer o tempo derreter, até que o barbeiro chegue à barbearia, para ele cortar o meu cabelo.
Da mesa, vejo e sinto a Rua da Glória com o seu lindo relógio, a tradicional mureta, sua fonte histórica, e o magnífico Outeiro, como uma pérola que repousa na concha da paisagem.
A via, que é pequena e se inicia na Rua da Lapa, findando na esquina da Benjamin Constant, é palco para suas personagens que transitam na rotina, algumas perdidas, outras apressadas; cada qual cumprindo o seu destino de ser vivente.
Morei por mais de uma década nessa rua singular, marcante caminho na geografia da cidade, onde Pedro Nava morava e caminhava, colhendo impressões para seu Galo nas Trevas, publicado em 1981, poucos anos antes do médico memorialista tirar a própria vida, em 1984.
Enquanto o barbeiro não chega, diante dos meus olhos a rua se desenrola como a trança de uma Rapunzel, ou como película cinematográfica – um filme de Wim Wenders, em um dia perfeito – cuja trama é a luta pelos sonhos.
A Rua da Glória transita em mim, anotando seu endereço no coração andarilho.
O barbeiro passa pela Rua da Glória e vai na direção da sua barbearia.
É hora de cortar a história.


