Francis Ivanovich
O coração de um homem é semelhante a uma biblioteca repleta de livros.
Nas prateleiras do coração, cada livro deve ocupar o seu devido lugar.
Por vezes, há volumes fora de ordem. É quando o coração entristece: está bagunçado.
Nessa biblioteca pulsante, há livros bons e maus livros.
Por isso, é possível conhecermos uma pessoa pelos livros que ela guarda no peito.
Os livros e os corações humanos são escritos ao amanhecer, antes mesmo de o sol nascer:
É quando os escritores e os pássaros cantam e voam.
É uma lástima uma casa sem livros. É o mesmo que um coração vazio.
Desagradável é quando nos roubam um livro, geralmente uma edição rara.
A gente se sente invadido, perdido, sozinho: uma biblioteca partida.
O coração de um homem deve estar sempre aberto, como uma biblioteca pública.
Pena que nem todo coração abre aos domingos.
Há bibliotecas nacionais, há bibliotecas municipais.
Há corações grandes como o universo, há corações pequenos como ruas sem saída.
Há bibliotecas raras, há corações vulgares.
Nenhuma biblioteca é completa, pelo simples fato de que novos livros estão para nascer.
Nenhum coração humano está apto para a leitura do mundo, pelo simples fato de que não há óculos suficientes.
Cada biblioteca, cada coração humano é uma obra inacabada, permanentemente.
Não há bibliotecário nem cardiologista que dê jeito.
É a natureza da biblioteca e do coração:
ser uma prateleira à espera do porvir.


