Encheu a cara. Dormiu na Rua Lapa, debaixo de uma folha de jornal. Baudelaire acabou enxotado do caminho, pois estava atrapalhando a saída dos moradores do prédio. Perguntou pelas horas, os olhos pareciam dois morangos, a roupa estava suja, e ele não largava seu caderno com os poemas.
A Lapa, a Glória, o Catete inteiros conheciam Baudelaire, sabiam que ele era um poeta nascido nos anos 60 e perdido nesse século 21. Um dos moradores lhe deu café num copo de plástico. Baudelaire perguntou se tinha pão. O morador deu uma gargalhada e disse que o pão nosso de cada dia estava contado.
Bebeu o café, queimando a língua, ficou de pé e caminhou na direção da Glória. Iria tentar um almoço num dos bares da região. Pelo caminho, esbarrou com um miserável que vivia da cata de sucata.
— Baudelaire, você está me devendo, seu filho da puta!
Baudelaire nem respondeu. Saiu correndo, pois o miserável estava com um pedaço de pau nas mãos. O poeta tropeçou e foi de cabeça contra a mureta da Glória. O sangue cobriu-lhe o rosto; o miserável não teve pena, meteu-lhe o sarrafo nas costas. Não fossem os guardas da prefeitura, Baudelaire talvez estivesse morto.
No posto de saúde do Catete, Baudelaire fez curativos. Apenas tinha aberto a sobrancelha, o sarrafo magoou-lhe as costas sem gravidade.
O dia estava muito quente. Não corria um ventinho no Catete. Então o poeta sentou-se em um dos bancos dentro do Museu do Catete, sob a sombra de um pau-brasil. Escreveu um poema:
O poeta levou porrada
Porrada no poeta
Poeta nasceu para apanhar
Levar tapa na cara
Sarrafo no lombo do coração.
Fechou o caderno e acendeu um cigarro. O guarda do parque mandou apagar.
Baudelaire preferiu ir embora, tentar um rango num bar em que ele tinha alguma moral.



