Vivemos uma época muito estranha. Tempos de silêncio ou de se dizer coisa alguma.
Eu sou de uma geração em que as pessoas de carne e osso conversavam realmente.
Não vou entrar no aspecto pessoal, mas no profissional.
No segmento da Cultura, área que trabalho, houve um tempo em que você botava um projeto cultural debaixo do braço, batia na porta, conseguia uma reunião e encontrava um parceiro.
Como vou me esquecer, por exemplo, da centenária e famosa rede de papelarias carioca, Casa Cruz, ela que se tornou uma grande parceira de projetos meus?
Me apoiou numa revista de arte, no teatro, no cinema e em outras ideias.
Conheci a diretoria batendo na porta, sem indicação ou padrinho, simplesmente me apresentei, olho no olho, e dali nasceu uma relação muito especial.
Até o discurso da sua reinauguração eu escrevi, após um incêndio que destruiu a matriz que ficava na Rua Ramalho Ortigão, no Largo do São Francisco de Paula, no Centro do Rio.
Hoje a situação mudou completamente. A gente não consegue falar mais com ninguém pessoalmente nas empresas, sem um pistolão.
E há tantos canais para se comunicar que, ao mesmo tempo, só geram silêncios.
O pior de tudo é quando você consegue reunião, online, vale registrar, gasta um tempo danado, envia proposta, aguarda, e nem o “não” a gente consegue receber através de um simples e-mail.
O assunto morreu e foi sepultado. A gente nem é convidado para o velório.
Que saudades dos “nãos” ditos na minha cara, saindo de uma boca cheia de dentes e sorrisos, entrando pelos meus ouvidos!
Hoje os produtores de cultura estão à mercê dos burocráticos editais, verdadeiros concursos públicos, mais difíceis de passar do que numa prova para ser magistrado.
Esses caras que criaram essas redes sociais deram um baita golpe na gente.
Estão cada vez mais ricos com suas tecnologias que prometem liberdade, comunicação entre as pessoas, mas só estão criando uma sociedade de silêncios e de bobagens.
Suspeito que essa gente odeia Cultura, artistas, gente que sente e pensa, eles querem nos silenciar para sempre.
Não tenho a resposta para enfrentar essa silenciosa realidade, nem sei onde isso vai dar. Só sei que eu vou resistir, continuar tentando levar “nãos” ditos por uma pessoa na minha frente, de peito aberto.
Não é o “não” que desanima, mas o silêncio. Chega a ser cruel.
Vamos em frente.


