(de Francis Ivanovich)
Josef não sabe quando passou a carregar um sentimento intrusivo, como se uma pedra pesada estivesse amarrada ao pescoço, a essa pedra podemos chama-la de exclusão — exclu, em francês.
Esse sentimento, o de estar sempre do lado de fora, de não pertencer a coisa alguma, fê-lo tornar-se um eterno estrangeiro, um andarilho silencioso em qualquer lugar onde fincasse os pés ou a sua sombra. Pelo caminho, encontrou quem lhe fechasse as portas, como todo mundo, mas isso em vez de faze-lo bater em novas portas, impregnou em seu espírito a raiva e, talvez como autodefesa, gerou o hábito de andar entre os vivos como um fantasma, o de não ser notado, e isso lhe proporcionava genuíno prazer.
Nesta manhã, despertou de um sonho insólito. Estava em uma grande cidade, poderia ser São Paulo ou Buenos Aires, diante de um vasto campo que lembrava uma plantação de trigo, encravado no coração da metrópole. Era a última área vazia, um pedaço de terra cobiçado pela ganância das construtoras. No sonho, ele nutria um desejo inusitado: comprar aquele terreno e instalar um painel luminoso que exibiria uma fotografia do seu rosto. O que esse sonho poderia significar? Para ele, a ideia de comprar um terreno estava fora de cogitação, não possuía recursos para isso, e a ideia de exibir para todos um retrato do seu rosto, sempre contraído, lhe causava repulsa. Além do mais, estar preso a um único lugar para sempre não fazia sentido algum; era como se antecipasse a própria sepultura.
Josef já vivera em tantos lugares que perdera a conta. No entanto, lembra-se da primeira casa que viveu, a casa da infância, onde sua mãe trabalhava como empregada, em uma chácara no interior, cuja casa dos proprietários era muito grande e bonita. O casebre que vivia com sua mãe ficava nos fundos da propriedade, uma estrutura antiga, de telhas de barro e paredes rachadas, com um banheiro desprovido de conforto. Foi entre aquelas paredes que ele crescera, isolado, tentando compreender quem era e de onde havia surgido. O pai, Josef jamais conheceu.
A chácara, amiúde, aparece em seus sonhos e Josef a visita habitualmente através do Google Maps, no computador, explorando a região onde um dia ela existiu. A chácara, outrora um refúgio arborizado, foi loteado e convertido em um estacionamento de um supermercado e junto a ele erguem-se construções horrendas de pequenas fábricas. Nenhum fragmento do passado sobreviveu, nem o casarão dos proprietários, os Martins, os mais ricos da região naquela época, família cujos dias foram marcados por tragédias e intrigas políticas. Ao revisitar virtualmente o cenário de sua infância, Josef sempre se admira de como seu mundo era pequeno e solitário.
”Para quê comprar um terreno tão grande?”, questionou-se, sem encontrar resposta. Recordou-se, então, de um outro sonho, na adolescência: de que morava em uma bela casa erguida no alto de uma colina verdejante de onde se avistava uma montanha coberta de neve. Prometera a si mesmo que um dia teria aquela casa que contrastava completamente com a pobreza que vivia. Os anos, porém, tinham embaçado a visão onírica que ressurgia inquietante no velho Josef, gráfico aposentado.
Josef passou o dia pensando no sonho, até que surgiu a ideia de conhecer uma casa que viu na internet. Acendeu um cigarro e debruçou-se no parapeito da janela da pequena casa de vila alugada, onde vivia há pouco mais de dois anos. Sentia-se sozinho, cansado, sem vontade de continuar morando naquele lugar; apenas a ideia de comprar a casa sonhada insistia em ocupar a sua mente.
No dia seguinte, Josef arrumou sua mochila e embarcou em um ônibus com destino a Teresópolis. Fazia anos que não subia a serra. A última vez fora para visitar uma amiga por quem nutria paixão jamais correspondida. O que o levava à serra era um anúncio em um portal imobiliário. A fotografia era de uma casa semelhante a sonhada na adolescência.
Josef desembarcou na Praça do Alto, ponto de encontro marcado com a corretora. Não demorou a identificá-la: a mulher estava encostada em um automóvel vermelho, fumando distraidamente. Após breves cumprimentos, ele entrou no carro, rumo ao bairro de Albuquerque, uma região mais isolada.
Durante o trajeto, a mulher discorreu sobre as qualidades do imóvel com entusiasmo. Descreveu o pavimento inferior com hall, lavabo, suíte com varanda, sala ampla, cozinha, despensa, lavanderia e garagem para dois carros; e o andar superior, que abrigava três quartos, um banheiro e uma área gourmet com churrasqueira. Contou que no quintal havia um pomar com jabuticabeiras, pessegueiros e pés de acerola, tangerina e ameixa, além da piscina e da vista privilegiada das montanhas. Por fim, anunciou que os proprietários estavam dispostos a negociar o valor de R$ 1,7 milhão. Josef ouvia fingindo interesse.
O que o movia não era o negócio, mas um desejo oculto que não conseguia compreender. Ele mal possuía economias, quanto mais a fortuna necessária para aquela aquisição. Aparentemente ele buscava apenas confirmar se o lugar era exatamente como a casa do sonho de sua juventude.
Ao chegar a casa, o sentimento de Josef se tornou ainda mais emaranhado. A mulher mostrava o imóvel, abrindo portas e janelas, valorizando cada ambiente, mas a casa não se parecia em nada com a que Josef sonhara na adolescência. Era grande demais, imponente. A corretora, percebendo o desinteresse do cliente, tentou persuadi-lo a visitar outras propriedades na região, mas Josef mal a ouviu, quando deu por si, a havia estrangulado e o corpo da mulher, que devia ter uns 45 anos, jazia no chão da sala, sem vida. Josef ficou ao lado do corpo por mais de uma hora, era como se não conseguisse se mover. Quando recuperou a razão, sentiu medo e acendeu um cigarro. Houve um instante em que cogitou a possibilidade de que mulher recobrasse os sentidos.
Olhando a paisagem pela janela da sala, compreendeu que o que sentia, era um desejo incontrolável de matar. Antes de deixar a casa, procurou vestígios da sua presença que pudesse denuncia-lo. Deixou a casa, estava mais nervoso, roubou o carro da vítima e fugiu do lugar. Enquanto dirigia, baixou os vidros e um gélido ar penetrou o interior do carro, produzindo um imenso prazer em Josef. Pela primeira vez em sua vida ele se sentia relaxado.
Flagrado por câmeras, Josef foi identificado e preso dois dias depois do crime. Segundo o delegado que ouviu seu depoimento, o criminoso não demonstrou arrependimento.


